Fazer um orçamento mensal é anotar quanto dinheiro entra e quanto sai no mês, planejar esses valores antes e conferir depois se o plano funcionou. A regra de partida, segundo o Caderno de Educação Financeira do Banco Central, é que as despesas não devem ser maiores que as receitas; o ideal é que sobre dinheiro para formar poupança. O mesmo material propõe um método em quatro etapas: planejamento, registro, agrupamento e avaliação.
Este guia mostra como aplicar cada etapa, com um exemplo ilustrativo de orçamento e o que fazer se a conta fechar no vermelho. Este conteúdo tem finalidade educativa e não é recomendação financeira; não existe um modelo único de orçamento que sirva para todas as famílias.
O que separar antes de começar
Reúna o que mostra a vida financeira real, e não a de memória:
- contracheque ou comprovantes de renda, para saber o valor líquido que cai na conta;
- extratos bancários e faturas de cartão dos últimos meses;
- carnês, boletos e contratos de parcelas em andamento;
- lista de despesas anuais, como IPTU, IPVA, seguros e matrícula escolar.
Para conferir dívidas que você talvez tenha esquecido, o Banco Central oferece de graça o Registrato. O relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR) mostra as dívidas e compromissos com bancos e outras instituições do sistema financeiro. O acesso é feito com conta gov.br nível prata ou ouro e verificação em duas etapas habilitada.
Etapa 1: planeje receitas e despesas do mês
O planejamento é uma estimativa do que vai entrar e sair. O caderno do Banco Central sugere usar os meses anteriores como base e separar:
| Tipo | O que é | Exemplos |
|---|---|---|
| Receita fixa | Varia pouco ou nada | salário, aposentadoria, aluguel recebido |
| Receita variável | Muda de um mês para outro | comissões, aulas particulares |
| Despesa fixa | Varia pouco ou nada | aluguel, prestação de financiamento |
| Despesa variável | Depende do consumo | contas de luz e água |
Inclua ainda:
- compromissos sazonais, como impostos, seguros e matrículas. O Módulo 3 do caderno lembra que muitos “imprevistos” são despesas esquecidas no planejamento, como IPTU, IPVA, Imposto de Renda e material escolar, além de datas comemorativas;
- compromissos já assumidos, como prestações a vencer e faturas de cartão.
Receitas que chegam uma vez por ano também merecem uma linha própria. O décimo terceiro salário é um exemplo. Outro é o saque-aniversário do FGTS, que a Lei nº 8.036/1990 (art. 20, XX) prevê uma vez por ano, no mês de aniversário do trabalhador; se você aderiu, entenda as regras em saque-aniversário do FGTS e não conte com esse valor todo mês.
Veja também FGTS na demissão: saque, multa e prazos.
Use a renda líquida, depois dos descontos do contracheque. Desde janeiro de 2026, a Lei nº 15.270/2025 reduz o Imposto de Renda mensal de quem tem rendimentos tributáveis de até R$ 5.000,00, de modo que o imposto devido fique zero, e diminui parcialmente o imposto até R$ 7.350,00. Se o seu desconto mudou, ajuste a receita; veja como funciona a isenção do IR até R$ 5 mil.
Etapa 2: registre tudo o que entra e sai
O caderno recomenda anotar todas as receitas e despesas, de preferência todo dia, para não esquecer. Algumas práticas ajudam:
- conferir extratos e faturas de cartão com regularidade;
- guardar notas fiscais, recibos e comprovantes;
- anotar a forma de pagamento de cada gasto: dinheiro, débito, Pix ou crédito.
Papel e lápis, planilha ou aplicativo funcionam; o material do Banco Central diz para usar a ferramenta com que você se sente mais confortável.
O cartão de crédito no orçamento
A compra no cartão é feita hoje e paga depois, na fatura. Para não se surpreender, registre o gasto no dia da compra e lembre que parcelas assumidas hoje ocupam o orçamento dos próximos meses. A fatura ajuda nessa conta: ela deve informar os lançamentos, inclusive os parcelados, e o saldo total das obrigações futuras, como parcelas de compras (Resolução BCB nº 96/2021, art. 9º, § 5º). O funcionamento da fatura está em cartão de crédito: como funciona.
Etapa 3: agrupe os gastos por categoria
Com o tempo, as anotações se acumulam. Agrupe-as por características parecidas, como alimentação, moradia, transporte e lazer; o caderno observa que essa não é a única forma, e você pode criar categorias que façam sentido para a sua realidade. O agrupamento mostra quanto da renda vai para cada área e onde cabem ajustes.
Uma segunda leitura útil, do Módulo 3 do caderno, separa os gastos em três tipos:
- necessários: ligados às necessidades, como alimentação e moradia;
- supérfluos: geram bem-estar, mas estão mais ligados a desejos do que a necessidades, como restaurantes e TV a cabo;
- desperdícios: não atendem nem necessidades nem desejos, como multas.
Etapa 4: avalie o mês e corrija o rumo
No fim do mês, compare o planejado com o realizado. O caderno classifica o resultado em três situações:
| Resultado | Situação |
|---|---|
| Despesas maiores que receitas | Deficitário |
| Despesas iguais às receitas | Neutro |
| Despesas menores que receitas | Superavitário |
A meta básica é ficar superavitário. Algumas perguntas sugeridas pelo material: os gastos correspondem às suas prioridades? Há assinaturas ou serviços que você não usa? Os pequenos gastos, somados, pesam? É possível aumentar a receita?
Exemplo ilustrativo de orçamento mensal
Cenário ilustrativo (valores hipotéticos). Uma pessoa com renda líquida de R$ 4.000 por mês monta o plano assim:
| Linha do orçamento | Valor no mês |
|---|---|
| Receita líquida | R$ 4.000 |
| Moradia (aluguel e condomínio) | R$ 1.400 |
| Plano de saúde | R$ 350 |
| Internet e celular | R$ 150 |
| Parcela de compra no cartão | R$ 200 |
| Subtotal de despesas fixas | R$ 2.100 |
| Mercado | R$ 800 |
| Luz, água e gás | R$ 250 |
| Transporte | R$ 300 |
| Lazer | R$ 200 |
| Subtotal de despesas variáveis | R$ 1.550 |
| Provisão para despesas anuais (R$ 1.800 por ano ÷ 12) | R$ 150 |
| Total de despesas | R$ 3.800 |
| Sobra planejada | R$ 200 |
O orçamento do exemplo é superavitário: sobram R$ 200. A linha de provisão divide despesas anuais, como IPVA e material escolar, em parcelas mensais guardadas com antecedência, para que elas não virem dívida quando chegarem. Os valores são apenas um exemplo; cada orçamento tem as próprias linhas.
Pague-se primeiro
Quando o orçamento é superavitário, o Banco Central sugere inverter a ordem habitual: separar a parte que vai para a poupança assim que a renda entra, antes de pagar as outras despesas, em vez de esperar o que sobrar no fim do mês. Uma forma prática é autorizar o banco a fazer uma transferência ou aplicação automática em data definida.
O primeiro destino dessa sobra costuma ser a reserva para imprevistos. Veja como calcular e montar a sua em reserva de emergência: como planejar.
E a regra 50/30/20?
A divisão 50/30/20 (50% da renda líquida para necessidades, 30% para desejos e 20% para poupança ou dívidas), popularizada por Elizabeth Warren e Amelia Warren Tyagi no livro All Your Worth (2005), é um método popular de organizar o orçamento, não uma norma oficial nem uma recomendação do Banco Central. Pode servir como ponto de comparação, mas a proporção que funciona depende da renda, do custo de moradia e das dívidas de cada pessoa. Se quiser testar, a ferramenta revisão de orçamento 50/30/20 compara os seus números com essa divisão.
Se o orçamento fechar no vermelho
Um orçamento deficitário pede ação antes que vire dívida cara. O Módulo 3 do caderno do Banco Central lista passos para sair do endividamento:
- Mapear as dívidas: valores, prazos e taxas de juros de cada uma. O relatório SCR do Registrato ajuda a não esquecer nenhuma dívida com instituição financeira.
- Não fazer dívidas novas enquanto reorganiza as contas.
- Renegociar: trocar dívidas de juros mais altos por outras de juros menores e negociar prazos; a portabilidade de crédito também pode ajudar.
- Reduzir gastos, começando por desperdícios e supérfluos.
Para comparar formas de quitar várias dívidas, use a calculadora de quitação de dívidas.
Faça do orçamento um hábito em família
Se a renda e as despesas são da casa, o orçamento também é. O caderno do Banco Central recomenda tomar as decisões em conjunto, porque buscar limites com a participação de todos costuma funcionar melhor do que impô-los. Revise o plano todo mês e sempre que algo mudar: emprego novo, mudança de casa, chegada de um filho.
Regras e valores mudam. Confira as fontes oficiais citadas e adapte o método à sua realidade.
Resumo
- Orçamento mensal é planejar e registrar receitas e despesas; a meta básica é gastar menos do que se recebe.
- O Banco Central sugere quatro etapas: planejamento, registro, agrupamento e avaliação.
- Separe receitas e despesas fixas e variáveis e inclua despesas sazonais e parcelas já assumidas.
- Registre compras no cartão no dia em que acontecem e acompanhe as parcelas futuras na fatura.
- Pague-se primeiro: separe a poupança assim que a renda entrar, de preferência com transferência automática.
- A regra 50/30/20 é um método popular, não uma norma oficial.
- Se o orçamento ficar deficitário, mapeie as dívidas (o Registrato é gratuito), evite dívidas novas, renegocie e corte gastos.



