Todo investimento tem risco, inclusive os chamados de baixo risco. Os principais são o risco de mercado (o preço oscila), o de crédito (quem recebeu o dinheiro não paga), o de liquidez (não dá para resgatar rápido sem perder valor) e o da inflação (o rendimento não acompanha os preços). Esses riscos podem ser reduzidos, mas não eliminados. Já os golpes são outro tipo de problema, que dá para evitar com alguns cuidados. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) protege só alguns produtos, só até certo limite e só quando a instituição quebra.
Este guia explica cada risco e como ele aparece nos investimentos mais comuns. Se você ainda não começou, veja antes como começar a investir. Este conteúdo é educativo e não é recomendação financeira.
Não existe investimento sem risco
O Portal do Investidor, mantido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), resume assim: os riscos são inerentes aos investimentos. Mesmo os produtos rotulados como "livres de risco" são, na prática, os considerados de menor risco no seu mercado, o que é diferente de não ter risco nenhum.
Risco também anda junto com retorno. Um investimento que paga mais costuma pagar porque traz mais risco. Por isso, a pergunta útil não é "qual investimento não tem risco?", mas "quais riscos este investimento tem e se eles combinam com o meu objetivo e o meu prazo".
Risco de mercado: o preço muda no caminho
É o risco que vem das condições da economia. Mudanças nas expectativas sobre juros, câmbio, crescimento e questões políticas e fiscais alteram o valor que os investidores atribuem aos ativos, e os preços oscilam. Segundo o Portal do Investidor, esse risco é fácil de perceber na renda variável, como ações, mas também existe na renda fixa, principalmente pelas mudanças nas expectativas de juros. Os títulos prefixados oscilam mais que os pós-fixados.
O Tesouro Direto é um bom exemplo. O saldo do extrato segue o preço de mercado dos títulos, o que se chama marcação a mercado. Segundo as regras do programa, quando a taxa de juros de mercado sobe em relação à taxa da compra, o preço do título cai; quando a taxa cai, o preço sobe. Quem fica com o título até o vencimento recebe a rentabilidade definida na compra. Quem resgata antes vende pelo valor de mercado do dia, e o retorno pode ser diferente do contratado, para mais ou para menos. A mecânica está em preços e taxas do Tesouro Direto.
Como lidar: alinhe o prazo do investimento ao prazo do objetivo. Dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento não deve depender de um preço que oscila.
Risco de crédito: quem recebeu o dinheiro pode não pagar
Ao comprar um título de renda fixa, você empresta dinheiro a um governo, banco ou empresa. O risco de crédito é a chance de esse emissor não pagar os juros ou não devolver o valor investido nas condições combinadas. O Portal do Investidor lembra que esse risco é inerente aos títulos de renda fixa e deve sempre ser avaliado com cuidado.
Na prática, o risco depende de quem emite. No Tesouro Direto, segundo o Portal do Investidor, você empresta dinheiro à União, e o pagamento é garantido pelo Tesouro Nacional. Num CDB, é o banco emissor, e o investimento pode ter a garantia do FGC dentro dos limites explicados abaixo; veja como funciona o CDB. Numa debênture, é a empresa que emitiu o título, sem garantia do FGC.
Como lidar: saiba sempre quem é o devedor, não só quem vendeu o produto, e confira se há garantia e de quem.
Risco de liquidez: nem todo dinheiro volta na hora
Liquidez é a facilidade de resgatar, vender ou transformar o investimento de novo em dinheiro, a um valor justo. O Portal do Investidor dá o exemplo do imóvel: quem precisa vender rápido costuma aceitar um preço mais baixo. Já a poupança e o CDB com liquidez diária podem ser resgatados a qualquer momento; na poupança, quem saca antes do aniversário só deixa de receber o rendimento do período.
Liquidez alta não significa ausência de risco. O Tesouro Nacional garante liquidez diária aos títulos do Tesouro Direto, mas recompra os títulos pelo preço de mercado do momento. Ou seja: o dinheiro volta rápido, mas o valor pode ser menor do que o esperado. Ativos com poucos negociadores também podem ter preços mais distorcidos, segundo o Portal do Investidor.
Como lidar: a reserva de emergência fica em aplicações de alta liquidez e baixo risco; o dinheiro para objetivos distantes pode aceitar menos liquidez. Veja onde guardar a reserva de emergência.
Risco de inflação: render menos que os preços
Para o Banco Central, inflação é o aumento dos preços de bens e serviços, que diminui o poder de compra da moeda. Um investimento pode render todo mês e, mesmo assim, perder poder de compra se o rendimento, já descontados imposto e taxas, ficar abaixo da inflação do período. O ganho que sobra acima da inflação é o que se chama de rendimento real.
Alguns títulos tentam proteger contra esse risco. O Tesouro IPCA+, por exemplo, paga uma taxa fixa definida na compra mais a variação do IPCA, que o Portal do Investidor descreve como o indicador oficial da inflação no Brasil. Segundo o portal, isso garante que o dinheiro não perca valor para a inflação se o título for mantido até o vencimento. Antes disso, ele continua sujeito ao risco de mercado. Os tipos de título estão em Tesouro Direto: tipos e imposto.
Como lidar: compare o rendimento líquido com a inflação, principalmente em objetivos de longo prazo.
Riscos legal e operacional
O Portal do Investidor cita mais dois riscos. O legal aparece quando um título ou contrato tem defeitos jurídicos que dificultam o exercício dos direitos do investidor; por isso a recomendação de aplicar só em investimentos regulamentados. O operacional vem de falhas durante o investimento, como problemas em sistemas, erros humanos ou má administração dos recursos pelo emissor.
Golpes: o risco que dá para evitar
Segundo o Portal do Investidor, as fraudes financeiras não fazem parte dos riscos normais do mercado e, diferentemente deles, podem ser evitadas pelo investidor. Os principais sinais de fraude listados pela CVM são:
- promessa de ganho alto com baixo risco: retorno potencial maior vem com risco maior;
- fórmulas mágicas ou dicas "quentes": podem esconder a venda de um curso ou um esquema ilegal, e a "dica" pode até envolver uso de informação privilegiada, que é crime;
- oferta de pessoas ou empresas não autorizadas: antes de investir, confirme que o profissional, a instituição e a oferta têm registro na CVM;
- pressão para decidir rápido: prazos curtos servem para impedir que você pense.
A CVM informa que pessoas e empresas sem registro não podem exercer atividades como análise, consultoria, gestão ou intermediação de valores mobiliários, e que o registro pode ser consultado no Cadastro Geral da CVM. A autarquia também publica alertas sobre ofertas e atuações irregulares. As pirâmides financeiras, em geral, não são de competência da CVM, mas configuram crimes contra a economia popular e devem ser comunicadas à polícia e ao Ministério Público.
O que o FGC cobre e o que não cobre
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado, com teto de R$ 1 milhão a cada período de quatro anos. A garantia é acionada quando o Banco Central decreta intervenção ou liquidação da instituição associada; o valor considerado é o saldo nessa data, somando o valor investido e os rendimentos, dentro do limite.
| Garantidos pelo FGC | Fora da garantia ordinária do FGC |
|---|---|
| Conta corrente, poupança e conta-salário | Títulos públicos (Tesouro Direto) |
| CDB e RDB | Fundos de renda fixa |
| LCI, LCA e LCD | Debêntures |
| Letras de câmbio (LC) e letras hipotecárias (LH) | CRI e CRA |
| Operações compromissadas com títulos emitidos depois de 8 de março de 2012 por empresa ligada | Letra Financeira (LF), LIG e LI |
| Títulos de capitalização, depósitos judiciais e depósitos no exterior |
Como a garantia depende da intervenção ou liquidação da instituição, ela não compensa a queda de preço de um investimento, a perda com a venda antes do vencimento nem o dinheiro entregue a golpistas. Os detalhes de conta conjunta e da contagem dos quatro anos estão em o que o FGC garante.
Para quem negocia na bolsa, existe outro mecanismo, com outra finalidade. Segundo o Portal do Investidor, o Mecanismo de Ressarcimento de Prejuízos (MRP), administrado pela BSM, empresa da B3, ressarce até R$ 200 mil por ocorrência prejuízos causados por ação ou omissão de corretoras e outros participantes da bolsa na intermediação de negócios ou na custódia. Ele não cobre oscilações de preço nem investimentos fora da bolsa, como Tesouro Direto, CDB, LCI, LCA e fundos abertos. O pedido deve ser feito em até 18 meses da data do fato.
O perfil do investidor ajuda a escolher os riscos
A Resolução CVM 30/2021 obriga corretoras, distribuidoras, bancos que oferecem valores mobiliários e consultores a verificar se o produto é adequado ao cliente antes de recomendá-lo ou de fazer a operação (art. 2º). Isso é o chamado dever de verificação da adequação, ou suitability. A instituição precisa avaliar:
- se o produto combina com os seus objetivos: o prazo, quanto risco você aceita e a finalidade do investimento;
- se a sua situação financeira é compatível: renda, patrimônio e necessidade futura de dinheiro;
- se você tem conhecimento para entender os riscos do produto (art. 3º).
A instituição também classifica os produtos considerando, no mínimo, os riscos do produto e dos ativos por trás dele, o perfil dos emissores, a existência de garantias e os prazos de carência (art. 5º). Se você pedir uma operação fora do seu perfil, ela deve alertar sobre a divergência e obter a sua declaração de ciência antes da primeira operação com aquela categoria (art. 7º). O perfil precisa ser atualizado em intervalos de no máximo cinco anos (art. 9º).
O questionário não elimina riscos, mas obriga você a pensar neles antes de investir. Responda com sinceridade.
Diversificar reduz, mas não zera o risco
Segundo o Portal do Investidor, os riscos de mercado, de crédito e de liquidez podem ser reduzidos, especialmente com diversificação, mas não eliminados por completo. Dividir o dinheiro entre emissores, tipos de produto e prazos diferentes evita que um único problema afete todo o patrimônio. A diversificação, porém, não substitui o casamento entre prazo e objetivo nem protege contra golpes.
Se algo der errado, o Portal do Investidor sugere, primeiro, procurar o profissional ou a instituição e, sem solução, a ouvidoria. Também é possível registrar reclamação no Consumidor.gov.br, onde as empresas participantes respondem em até 10 dias.
Checklist antes de investir
- Qual é o objetivo e quando vou precisar do dinheiro?
- Quem é o devedor ou o emissor?
- O preço pode oscilar antes do vencimento?
- Consigo resgatar quando quiser e por qual valor?
- O rendimento líquido supera a inflação esperada?
- Há garantia do FGC e estou dentro do limite?
- Quem oferece o produto tem registro e a oferta é regular?
Resumo
- Não existe investimento sem risco; os principais são mercado, crédito, liquidez e inflação, além dos riscos legal e operacional.
- Renda fixa também oscila: no Tesouro Direto, quem vende antes do vencimento recebe o preço de mercado do dia.
- O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF e instituição (teto de R$ 1 milhão em quatro anos), só nos produtos que lista e só se a instituição sofrer intervenção ou liquidação.
- Golpes não são risco de mercado: desconfie de ganho alto sem risco, de pressa e de quem não tem registro na CVM.
- Pela Resolução CVM 30/2021, a instituição deve verificar se o produto combina com seus objetivos, sua situação financeira e seu conhecimento.


